segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Serões da Bonjóia - Porto

Libânia Madureira - Carlos Andrade - Cristina Correia


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trind' Art Exposição de Pintura



CASA da CULTURA de PARANHOS


PORTO


TRIND' ART EXPOSIÇÃO DE PINTURA

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011


sexta-feira, 8 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

As lições

As lições


Ensinaram-me a falar

aprendi a escrever.


Ensinaram-me a escrever

aprendi a falar.


Ensinaram-me a ler

aprendi a ver.


Ensinaram-me a ouvir

aprendi a calar.


Ensinaram-me a pedir

aprendi a dar.


Ensinaram-me a comprar

aprendi a ter.


Ensinaram-me a beber

aprendi a rir.


Ensinaram-me a fugir

aprendi a ficar.


Ensinaram-me a aprender

aprendi a ignorar.


Ensinaram-me a amar

aprendi a criar.


Ensinaram-me a viver

aprendi a morrer.


Ensinaram-me a estar só

aprendi a estar.


Ensinaram-me a ser livre

aprendi a ser.



Ana Hatherly (1929- )

In Antologia da poesia portuguesa. Org. M. Alberta Meneres, E. M. Melo Castro. Vol. 2: 1940-1977, Lisboa, Moraes Editores, 1979, Col. Círculo de Poesia, p.76-77

Grupo de Pesquisa Eniac - TV Educacional (26/08/2009) A VISION OF STUDEN...

Na água do tempo




«Entre Julho e Agosto, A-Ver-O-Mar- 1961 Passam nuvens carregadas de chuva, empurradas pelo noroeste. Será finalmente a benção, tão pedida, para os milhos esganados de sede? Ou o noroeste é o varrer dessa promessa e teremos outro dia límpido e de sol aguilhoado?Já conheço os aprestos: o ganha-pão, a graveta, a carrela, as poitas, o vertedouro, as nassas, as siglas nos remos e nos paus. Já sei achãosar, estender, embora me avenha mal a empadelar. Tomo conta dos cachopos enquanto as mães andam nas carreladas ou na beirada. A minha vida entrelaca-se com a deles. (…)Enraízo-me. E maravilho-me com as algas. Vidradas umas, assedadas como flores, outras. Fendidas como guelras. Penugentas como borlas. Com texturas de tecido, de borracha, de látego. E o precioso coral das buzininhas, misturado às sardas dos beijinhos ou à madrepérola axadrezada dos caracóis. As transparências e os brilhos ressuscitam toda a beleza da Terra. Há uma exaltação de começo do mundo, quando o azul ultramarino, varrido pela nortada se encrista de luminosas espumas.(…)»

Na água do tempo -diário por Luísa Dacosta, Quimera Editores, 1992 ; publicado também pelas Edições Asa

segunda-feira, 4 de julho de 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Poesia de Libânia Madureira

Som do silêncio

Infinitos caminhos,
Que se cruzam
Se tocam, se fundem
...se irmanam

Pequenos nadas,
Tão importantes
Nas imagens permanentes
Nos factos inesquecíveis
De momentos eternos,
Nas vidas que não se apagam…

“NO MEIO DA MULTIDÃO… HÁ SOLIDÃO POVOADA”

Viajando, sem sair do lugar,
Ouvindo apenas os suspiros dos ventos,
Que murmuram parecendo chorar,
Ainda que por breves momentos.

Há uma saudade,
Um perfume triste,
Uma dor que persiste
E não se vê.
Dura mágoa, invade
O coração
De tanta gente,
Apesar de saber o porquê,
De tanta solidão povoada,
Tanta gente abandonada
Neste imenso bosque
Pela dor, pela sorte,
No meio da multidão.

Ah, como eu queria,
Que o amor não fosse utopia
E uma gota deste vasto oceano,
_ Um simples grão de argila humano_
Florescesse
Aquecesse
A semente que repousa na sua leva,
Abatesse a treva
Num mágico toque de amor,
Esse antídoto da solidão e da dor…

Ecos Vítreos

Ecos Vítreos
Transpondo o espaço sideral
Ecos níveos
Onde as estrelas pintam cada palavra minha e tua
Humana e universal
Deixando transparecer o invisível
Sons da vida que se perpetua
Num poema indizível
Na magia da Lusofonia
Numa “Sonata” imortal

Libânia Madureira

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Helena Magalhães




A Maçã Bravo de Esmolfe e a Lagarta Jeremias

É um livro com cheiro a maçã e fala-nos da aventura de uma lagarta e a amizade que trava com uma coruja, uma viagem repleta de percalços... Explora os sentidos, desde a forma, o tamanho, textura, e cor, ao mesmo tempo que convida a mergulhar no mundo do fantástico...





A Cidade de Vidro
Lembro-me em criança que se criavam momentos mágicos entre mim e o meu pai quando ele me contava uma história, ao mesmo tempo que tingia o branco do papel com a magia das cores, ou até mesmo os traços que os seus dedos rapidamente acasalavam com a história imaginada por ele. - Conta-me mais uma história... Aqui começam os momentos belos de comunicação, uma riqueza nas suas memórias na qual nós seremos cúmplices para toda a vida. No Era uma Vez uma expressão que tantas vezes nos faz remeter para o passado e que nos prende ao irreal e à fantasia, onde a magia nos faz transpor para voos imaginários... Hoje guardo com saudade no bolso da minha alma as histórias de meu pai.


Helena Magalhães, natural de Godim, Peso da Régua, concluiu o terceiro ano do curso superior de Animação e Orientação pela Arte, no Porto. De seguida, fez vários estágios de aperfeiçoamento com grupos de risco, nomeadamente alcoólicos, crianças abandonadas, paralisia cerebral, idosos, esquizofrenia, prostituição, entre outros. Posteriormente frequentou um curso intensivo de Alemão e um outro de pintura na Alemanha. De regresso a Portugal, leccionou aulas de E.V.T. e Educação Visual em algumas escolas do distrito de Vila Real, Porto e Viseu. Trabalhou como Animadora Cultural, ao mesmo tempo, escreveu várias crónicas no jornal semanal, “O Arrais”. O gosto pela literatura e pelos livros de uma forma em geral levou-a a ingressar num Curso técnico de Biblioteca, Arquivo e Comunicação. Fez várias acções de formação relacionadas com a Hora do Conto e, mais recentemente um Curso de Acção Teatro. É mediadora de leitura, fazendo Horas do Conto em várias bibliotecas e escolas do país, dando também conferências sobre Violência doméstica. Editou os livros infantis: “A Cidade de Vidro”, “A Magia de um Sonho”e recentemente "A Maçã Bravo de Esmolfe e a Lagarta Jeremias". "Romper as Grades da Vida" foi a sua primeira investigação, onde relata testemunhos de sete mulheres vítimas de violência doméstica, e "Vidas Separadas", é o seu romance que narra casos de vida.

TRATADO DA ALEGRIA



TRATADO DA ALEGRIA
de José Leon Machado


É uma colectânea que recolhe os poemas do autor compostos entre 2001 e 2008, seguindo-se cronologicamente à obra Prosa Versificada II. Está dividida em duas partes: "Restos de uma estética romântica" e "Últimos Poemas". Na última composição, a mais breve da colectânea, o escritor diz:



A tinta escorre pela memória

E desfaz-se nos dedos.

Não há mais palavras a tecer.



José Leon Machado (n.1965, Braga), é o pseudónimo literário de José Barbosa Machado, professor de Semiótica e de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal). É um dos autores da nova geração literária portuguesa.

Licenciou-se em Humanidades pela Faculdade de Filosofia de Braga em 1991. Começou em 1990 a trabalhar como professor na Escola Secundária de Vila Verde. Em 1997, termina o mestrado em Língua e Literatura Portuguesas na Universidade do Minho. Em 1999 vai trabalhar como assistente para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde faz o doutoramento (2002).

A temática das suas obras vai desde a questão das origens, passando pelo fim do mundo rural, até à perda da memória cultural da sociedade moderna. O seu estilo simples, sem ser simplista, destoa do panorama da literatura portuguesa actual, com tendências para a vulgaridade por um lado e para a obscuridade e o barroco por outro. A escrita do autor afasta-se destas tendências e tem um pendor clássico, dentro da tradição de Eça de Queirós e Vergílio Ferreira, sem porém cair na imitação fácil.
A sua produção literária é variada. No entanto, tem-se evidenciado como contista, com três colectâneas de contos publicadas: Fluviais (2001), Os Incompatíveis (2002) e Jardim sem Muro (2007); e como romancista de ambientes históricos: O Guerreiro Decapitado (um romance cuja acção se passa no século I d.C. durante a colonização romana do território que actualmente corresponde a Portugal), Memória das Estrelas sem Brilho (um romance sobre a participação dos Portugueses na Grande Guerra), e A Vendedora de Cupidos (um romance que se passa no contexto da segunda Guerra Mundial).
Os romances O Cavaleiro da Torre Inclinada (2009) e A Planta Carnívora (2011) reflectem a experiência do autor como professor universitário, uma vez que a temática destas obras é a vida académica. Aproximam-se, no uso da ironia e nalgumas situações de âmbito amoroso, de alguns dos contos presentes em Os Incompatíveis.


Publicou os seguintes livros de ficção:
O Guerreiro Decapitado (romance, Campo das Letras, 1999);
Fluviais (contos, Campo das Letras, 2001; Grande Prémio de Literatura ITF 2002);
Os Incompatíveis (contos, Campo das Letras, 2002; Prémio Edmundo Bettencourt 2001 da Câmara Municipal do Funchal);
Braços Quebrados (romance, Edições Vercial, 2003);
O Construtor de Cidades (romance, Edições Vercial, 2004);
Não me Guardes no Coração (romance, Pena Perfeita, 2005);
Quero Cortejar o Sol (diário, DG Edições, 2006).
A Bruxa e o Caldeirão (com ilustrações de Nuno Castelo; literatura infantil, Edições Vercial, 2006).
Jardim sem Muro (contos, Edições Vercial, 2007).
Memória das Estrelas sem Brilho (romance, Edições Vercial, 2008).
O Cavaleiro da Torre Inclinada (romance, Edições Vercial, 2009).
A Vendedora de Cupidos (romance, Edições Vercial, 2010).
A Planta Carnívora (romance, Edições Vercial, 2011).

Cimbalino Curto




Onofre Varela nasceu no Porto em 1944, estudou pintura e exerceu a actividade de desenhador gráfico em litografia e agências de publicidade, antes de abraçar a carreira de jornalista (na área do cartune), em 1970, no jornal O Primeiro de Janeiro. Colaborou com a RTP, desenhando em directo a informação meteorológica no programa Às Dez e animando espaços infantis. Exerceu a função de Cartonista diário de "O Comércio do Porto". Actor, pintor e escritor. Foi caricaturista e ilustrador principal no Jornal de Notícias, onde também escreveu artigos de opinião, crónicas e entrevistas. Premiado em Portugal e no estrangeiro nas áreas da caricatura e da criação de logótipos, expôs os seus trabalhos satíricos em Portugal, Espanha, França, Turquia, Macau e Brasil. Publicou O Peter Pan não existe, Caminho, 2007; é co-autor de Cinco Enterros do João, Arca das Letras, 2006. Onofre Varela é uma das personalidades mais conhecidas da região do Porto.

Começou a trabalhar aos 14 anos como tipógrafo e ia frequentando a Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, até ser mobilizado para Angola, onde esteve de 1965 a 1968. Aí estreou-se na revista Notícia, com banda desenhada. Na evolução da sua carreira profissional, saltou das litografias para agências de publicidade e destas para os jornais. N’O Primeiro de Janeiro, entrou como maquetista e ilustrador, em 1970.
Ilustrador, Cartonista
Nas revistas e jornais, a sua actividade de escritor enlaça-se com a de ilustrador e caricaturista. Foi responsável gráfico do Notícias da Tarde e de O Jogo. Publicou caricatura em O Tripeiro e em O Comércio do Porto ,onde dirigiu graficamente o suplemento “Encontro”. Colaborou com a RTP desenhando em directo no programa Às Dez. Ilustrou manuais escolares e contos infantis da Porto Editora.
Culminou a sua carreira como Ilustrador Principal do Jornal de Notícias ,onde, durante uma década, publicou caricatura, desenhos, textos. Como cartunista fez uma exposição retrospectiva dos seus 25 anos de ilustrador, no Salão Jardim do Coliseu do Porto, 1994. Participou na exposição “Mário Soares visto pelos caricaturistas”, no Palácio de Belém.
Pintor
Participou em diversas exposições colectivas em Espanha, França, Jugoslávia, Turquia, Macau, Dinamarca e Brasil.
Escritor
Publicou os livros Cimbalino Curto (2000) e O Peter Pan Não Existe - Reflexões de um Ateu, Ed. Caminho, 2007. Tem textos e desenhos nas revistas Campismo e Caravanismo, Hobby e nos jornais O Chato, O Olho, A Pantera… Em O Primeiro de Janeiro, escreveu uma rubrica semanal, intitulada “Ovnis Existem”, que durou de 1978 a 1981 (133 artigos). Foi repórter da Quinzena do Porto. Colabora nos jornais O Gaiense, Soberania do Povo (Águeda), Gazeta de Paços de Ferreira e Correio Alentejo.
Actor
Desde 1963 que adora teatro. Nesses espectáculos, ajudava na montagem, pintava cenários, cantava, fazia ilusionismo e imitações. Em 2000, estreou-se na revista 2001 Odisseia do Carago, Sá da Bandeira, Porto. Actuou em três revistas e hoje é actor no grupo amador Cale Estúdio Teatro, de Gaia.
Prémios

1984 - Nações Unidas, logótipo sobre integração de delinquentes / Caricatura - Nos VIII e X Salões de Caricatura de Oeiras e no II Salão Luso-Galaico de Caricatura de Vila Real;
1998 - diploma de Professor Honorífico do Humor, outorgado pela Universidade de Alcalá de Henares (Madrid);
2001 - Prémio Homenagem atribuído pela Caricaturartes, Seixal.
Consta no Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX, Porto Editora, 2001.


Cimbalino Curto (em versão revista e aumentada!) é um tratado corrosivo sobre as múltiplas formas de fazer humor. Uma espécie de Kama Sutra do humor, como alguém, supostamente entendido, o classificou, um dia. Mesmo assim, nunca confiando, o melhor é optar por uma só posição vertical para ler o livro. Só dessa forma é possível retirar dele o máximo prazer…


Cimbalino Curto

ISBN: 978-989-8255-00-6

Amor



Amor,

Amor é uma gaivota

a voar sem fim.

Amor é um ramo de flores

cheio de feitios e cores.

Amor é a paz, a amizade

e a brincadeira.

Amor é ser feliz e

seguir o que Deus nos diz.

Amor é apoiar o outro

na alegria e na tristeza.

Amor é tudo o que se

faz com o coração e não

com a cabeça!


Beatriz Abelha

terça-feira, 14 de junho de 2011

“Miscigenação”



“Miscigenação”

Abrem-se os brotos do tempo
Nas elegias do momento
Pincelando a natureza
Num arco-íris de rara beleza,
Deixando fluir os seus mais
Puros momentos de inspiração,
No brilho dos cristais
Da primavera.
Doce quimera
Superando o brilho das estrelas
A quem fez por merecê-las,
Nas diferentes formas e cores
Cheia de magia e odores.

Provada magnitude
Em premissas e virtude
Das vivências do dia-a-dia.
Fecunda poesia
Lapidando horizontes
Ainda por rasgar.
Constelação bordada do olhar,
Trazendo à magia do sentimento
Toda a beleza e encantamento.

Por entre alvorada
E treva, brilho iridescente
Se propaga,
Emerge, a espécie eleita
Na matriz pura.
Obra perfeita,
Arquitectada
Miscigenação que perdura,
Atravessando os sulcos da memória,
Onde termina o texto ázimo da infância,
Reinventando o que dela resta, num outro idioma.
Tempo docemente renovado,
Pelo momento, pela História,
Nova fragrância,
Doce aroma,
Invade e emana
Da tela e na porcelana…

Libânia Madureira

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Testemunho de Vida: “O Gosto pela Vida”

Já lá vão 35 anos. Parece que foi ontem.
Há momentos na vida em que tudo parece acabar, tudo se desmorona, tudo se desmancha, tudo cai, tudo desaparece num turbilhão imenso, confuso e escuro. De repente e sem que nada o fizesse crer, todos os nossos projectos, todas as nossas fantasias, todos os nossos castelos construídos ou a construir, tudo desapareceu inexoravelmente de forma brutal, cruel e instantânea. Os sonhos, os planos longamente arquitectados para um início de uma vida adulta e organizada, que na prancheta da imaginação se apresentam sempre de forma risonha e apelativa, tudo desapareceu, tudo se escoou, tudo se afundou, devorado por esse tremendo “buraco negro” afunilado e profundo.
Já lá vão 35 anos.
A constatação da dura realidade em que nos encontrámos, a certeza de que o pesadelo era palpável e é real, a consciência da monstruosa injustiça que os deuses permitiram que sobre nós se abatesse, geraram em nós sentimentos de raiva, de dor e de inconformismo que apelaram às nossas mais recônditas reservas de energia e de resistência para conseguirmos emergir de todo este caos. O destino reclamou de nós pesado tributo. Iremos pagá-lo mas iremos igualmente cobrar dividendos. (…)
Não lançámos a toalha ao chão. Não aceitámos a derrota e recusámos a rendição. Por muito poderosas e destruidoras que sejam as forças que sobre nós se abatam, por mais profundas que sejam as marcas e as feridas que provocam e enquanto subsistir a nossa capacidade de pensar e a nossa vontade própria, há sempre coisas que são indestrutíveis e que são as grandes armas que irão permitir vencer a adversidade e lutar contra todas as barreiras: a personalidade, o carácter, a força interior, a criatividade e o poder de iniciativa. Com este arsenal e com o sólido e indispensável apoio dos entes queridos e dos amigos, é e foi possível, recriar todo um novo projecto de vida, voltar a colocar na prancheta novos planos e novos horizontes, voltar a sonhar e voltar a acreditar nas fantasias.
Já lá vão 35 anos.
A luta não é, nem foi fácil. As múltiplas barreiras físicas, culturais e sociais continuam a ser tremendas e por vezes difíceis de ultrapassar. Ao longo desta caminhada, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foi necessário subir montanhas e atravessar desfiladeiros. Poucas vezes encontrámos planícies. Foi necessário abrir muitas portas, quase sempre fechadas, forçar a entrada, muitas vezes a pontapé. A novidade e o ineditismo da luta que vimos travando no seio de uma sociedade quase totalmente alheia a estas realidades, trouxe-nos algumas vezes momentos de desalento e de frustração, mas trouxe-nos igualmente, momentos de alegria e sentimentos de vitória, quando conseguimos finalmente abrir as portas ou atravessar os desfiladeiros, mostrando aos outros que todos juntos e cada um com a sua quota parte de participação, é que preenchemos e construímos o puzzle deste imenso universo que é a humanidade e/ou a sociedade ou as micro-sociedades em que estamos inseridos. (…)
É tempo de olhar para trás e sentir a agradável sensação e o prazer de quem cumpriu mais uma etapa na vida. Olhar para baixo, lá do cimo da montanha e ver o sinuoso e difícil traçado que desde a base até aqui nos conduziu, vencendo e ultrapassando inúmeros e aparentemente intransponíveis obstáculos. Olhar com alguma nostalgia para tudo o que aconteceu, para tudo o que foi construído, para tudo o que foi concretizado, quase sempre a partir do zero, como tudo hoje parece tão simples e tão fácil. (…)
As actividades profissionais e culturais, sempre vividas e desenvolvidas, envolvimento e a participação em múltiplas iniciativas e projectos de âmbito social e comunitário, a partilha de conhecimentos experiências com pessoas e instituições, o permanente contacto convívio com os amigos, aquecem-nos o ego e dão-nos a certeza de sermos membros pro-activos da grande aldeia a que pertencemos. Mas há um factor que é, e foi fundamental para que o “boom” que sobreveio ao “buraco negro” acontecesse: o calor humano e o amor da família e dos amigos. Sem o companheirismo, o apoio e o amor sempre presentes, da família dos pais, dos irmãos, da esposa, dos filhos e agora dos netos, as vitória alcançadas não teriam nem o sabor nem o significado que todos lhe atribuímos. Foi por eles e com eles que tudo se realizou.
Faz hoje 35 anos que esta saga começou. António Neves, 2007.


http://www.aclal.org/



Nota Biográfica: António Neves, nascido no ano 1949; Oficial Superior do Exército, Tenente Coronel na situação de reforma extraordinária; Licenciado em Estudos Europeus; Mestre em Gestão de Organizações Desportivas (MEMOS); Actualmente a finalizar a Licenciatura em História; Formação Técnica na Área da Informática; Conselheiro da CP para Clientes com Necessidades Especiais (CNE), desde 2004; Foi dirigente da Federação Portuguesa de Remo e responsável pelo Remo Paralímpico até Março de 2011; Presidente da Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD) – 2001/06; Responsável pelo Projecto Super Atleta Atenas 2004 e lançamento do Pequim 2008; Presidente da International Blind Sport Association (IBSA-EUROPA) – 2005/06; Membro do Conselho Superior do Desporto de 2003/05; Presidente do Conselho Fiscal da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) – 1977/79 e de 1993/95; Presidente da Delegação Regional do Sul e Ilhas da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (DRSI – ACAPO) – 1998/00; Viveu em Angola, Nova Lisboa e Lobito, desde 1955 até finais de 1975; Como atleta federado praticou Hóquei Patins, como júnior e sénior no Lobito Sport Clube; Iniciou-se no Remo como júnior; A partir de 1977 e já como Deficiente das Forças Armadas, praticou atletismo e ciclismo; Tem como “hobby”, além da informática, leitura e música, o rádio amadorismo (CT1AHF), sendo fundador do Clube de Rádio Amadores de Cascais e Vice-Presidente da ARIES – Asociación de Radioaficionados Invidentes Españoles; É sócio fundador do Jam Session – Clube de Jazz de Cascais; Em parceria com um antigo camarada, Armando Magno, colaborou e foi director do jornal “online” Jornal Passa-Palavra. Sócio Aclal.

Os Filhos da Guerra

Falar dos Deficientes das Forças Armadas e da sua associação representativa, a ADFA, 36 Anos após a Revolução dos Cravos, é, não só um desafio interessante mas, acima de tudo, um exercício extremamente aliciante. Toda aquela geração de 60 ficou bem marcada e representada pelos milhares de jovens militares que, em função de ferimentos ou doenças adquiridos no serviço ou em combate, povoaram os hospitais militares, onde a pouco e pouco foi germinando um movimento de contestação e uma tomada de consciência. Os muitos Oficiais e Sargentos Milicianos que passaram a integrar os contingentes militares, fizeram com que a pouco e pouco, entre os internados nos hospitais, surgissem alguns grupos e núcleos, mais esclarecidos, que entre si iam questionando a razão e o porquê de ali estarem e da sua situação. Os ventos de mudança, as novas mentalidades e a nova consciência social trazidas pela Primavera de 68 em Paris, e que a pouco e pouco foram influenciando as camadas jovens e universitárias, contribuíram igualmente para esta tomada de consciência por parte dos deficientes militares e também das novas gerações de milicianos que iam sendo incorporadas. (…) Quando em Fevereiro de 1961, eclodiu a revolta armada em Angola, com a luta pela independência, liderada pelos movimentos UPA/FNLA, MPLA e mais tarde a UNITA, o governo português viu-se de um momento para o outro confrontado com a necessidade de enviar grandes contingentes militares para as colónias. Este deflagrar da guerrilha em Angola rapidamente teve repercussões nas outras colónias, tendo a luta armada sido iniciada em 1963 na Guiné e em 1964 em Moçambique. Deu-se assim início a um período dramático da história recente de Portugal, os anos da Guerra Colonial ou do Ultramar, que se prolongou até 1974 e que marcou radical e profundamente toda a sociedade portuguesa e muito especialmente os jovens que desde 1961, se viram obrigados a participar numa guerra, condenada pela opinião pública mundial e dificilmente justificada pelos governantes portugueses. Estima-se que durante os 13 anos de guerra, mais de 1 milhão de jovens portugueses tenha passado pelas fileiras, tendo nos 3 principais teatros de operações muitos deles tombado e muitos outros daí regressado incapacitados e com deficiências permanentes. Uma vez mais o país se viu perante uma situação para a qual não estava preparado, e que rapidamente começou a gerar situações de inconformismo, preocupação e desespero entre a sociedade civil e sobretudo, entre os familiares que viam os seus entes queridos regressarem mortos ou estropiados. Para além da inoperância e da incapacidade dos hospitais militares, da inexistência de técnicos qualificados e centros de reabilitação capazes de receber os mutilados e traumatizados de guerra e de lhes dar reabilitação física e protésica adequada, também não existia qualquer programa de reabilitação e reinserção social e profissional, nem nenhuma linha de apoio de retaguarda, com centros de acolhimento para os grandes deficientes nem tão pouco, qualquer legislação que consagrasse direitos de apoio e subsistência a esses militares. (…) A memória dos homens é curta e os sentimentos e as emoções que normalmente acompanham os grandes momentos de viragem na vida de um povo vão-se quase sempre diluindo, caindo no esquecimento ou perdendo a importância que num determinado contexto adquiriram. A força que o movimento dos Deficientes das Forças Armadas representou no período revolucionário do Pós 25 de Abril, o seu impacto na opinião pública e porque não dizê-lo, o interesse que representava para algumas movimentações politico partidárias, deram um protagonismo as estes milhares de militares e à sua causa, que muito contribuiu para levar o poder democraticamente constituído, a decretar e a publicar legislação que contemplasse os seus legítimos direitos e lhes abrisse as portas para uma verdadeira integração socioprofissional. Embora continue por esclarecer, em definitivo, o número total de militares que na Guerra do Ultramar adquiriram deficiências ou incapacidades permanentes, os números variam consoante as fontes (MDN, Estados-Maiores, Associações e Organismos de Veteranos e de Deficientes Militares, etc.), os dados fornecidos pela Caixa Geral de Aposentações em 1995, afiguram-se-nos como sendo os mais credíveis e próximos da realidade. Nesta data já tinha decorrido tempo suficiente para que tudo se organizasse, para que muitos processos fossem reabertos e reorganizados, e enfim para que esta parte da problemática dos deficientes militares estivesse já administrativa e burocraticamente resolvida. (…) António Neves, 2010.





Nota Biográfica: António Neves, nascido no ano 1949; Oficial Superior do Exército, Tenente Coronel na situação de reforma extraordinária; Licenciado em Estudos Europeus; Mestre em Gestão de Organizações Desportivas (MEMOS); Actualmente a finalizar a Licenciatura em História; Formação Técnica na Área da Informática; Conselheiro da CP para Clientes com Necessidades Especiais (CNE), desde 2004; Foi dirigente da Federação Portuguesa de Remo e responsável pelo Remo Paralímpico até Março de 2011; Presidente da Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD) – 2001/06; Responsável pelo Projecto Super Atleta Atenas 2004 e lançamento do Pequim 2008; Presidente da International Blind Sport Association (IBSA-EUROPA) – 2005/06; Membro do Conselho Superior do Desporto de 2003/05; Presidente do Conselho Fiscal da Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) – 1977/79 e de 1993/95; Presidente da Delegação Regional do Sul e Ilhas da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (DRSI – ACAPO) – 1998/00; Viveu em Angola, Nova Lisboa e Lobito, desde 1955 até finais de 1975; Como atleta federado praticou Hóquei Patins, como júnior e sénior no Lobito Sport Clube; Iniciou-se no Remo como júnior; A partir de 1977 e já como Deficiente das Forças Armadas, praticou atletismo e ciclismo; Tem como “hobby”, além da informática, leitura e música, o rádio amadorismo (CT1AHF), sendo fundador do Clube de Rádio Amadores de Cascais e Vice-Presidente da ARIES – Asociación de Radioaficionados Invidentes Españoles; É sócio fundador do Jam Session – Clube de Jazz de Cascais; Em parceria com um antigo camarada, Armando Magno, colaborou e foi director do jornal “online” Jornal Passa-Palavra. Sócio da ACLAL.

«Sentida Homenagem» O/A PROFESSOR(A) de Libânia Madureira




Encontro com a «Lusofonia», marcado pelos grandes valores e com a temática:
“VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS” . Estórias da Escola.


A minha «Sentida Homenagem» a Ti, PROFESSOR(A), com a minha gratidão.


O/A PROFESSOR(A)


O/A Professor(a), traz na sua vocação
O sussurro das palavras ávidas
De vida, por mais vida.

A mensagem escrita na alma
E de livros na mão,
Uma vezes calma,
Outras num labor insano
E agreste,
Transpondo a barragem do ser humano,
Modelada generosamente
Numa doação de Mestre,
Contínua e altruísta
Fazendo sonhar,
Acreditar
Que o conhecimento, se conquista.

Sinfonia incompleta
Uma porta entreaberta
Se abre de par em par
Dissipando as nuvens que encobrem o olhar,
Rasgando o silêncio mudo,
Tocando as harpas do sonho e da fantasia
Com seu saber e estudo,
Expelindo toda a energia,
Fazendo sentir que o «sonho» , não é palavra vã
Nos Homens/Mulheres de hoje, de amanhã…

Libânia Madureira




Academia de Letras e Artes Lusófonas - “ACLAL”



A Academia de Letras e Artes Lusófonas - “ACLAL”, tem a honra de convidar Vª Excia e Exmª Família para uma tertúlia de “Troca de Palavras”, que se realiza no próximo dia 3 de Junho de 2011, pelas 21:30 horas, na Quinta de S. Salvador, em Vila Nova de Gaia, num encontro com a «Lusofonia», marcado pelos grandes valores, e com a temática: «Voando sobre um ninho de cucos. Estórias da escola.» , através da convidada especial, Drª Angelina Carvalho - Investigadora em ciências de Educação.

" A Língua Portuguesa que é a pátria de grandes mestres, nasceu de Portugal. Este nasceu de (Portucale)...Porto e Cale (Gaia). Logo, as jornadas de nossa Academia Lusófona que tiveram o seu início e muito bem em Cale, em frente ao Porto.
E daqui, mais amadurecida, irá distribuir-se e enraizar noutros solos ubérrimos, crescendo, florindo e oferecendo frutos ao Mundo.
Assim seja !
Compareçam para darem força a esta ideia!"
Arménio Vasconcelos


Poema para a Mãe



quarta-feira, 1 de junho de 2011

Da Decadência À Regeneração - Jacinto e o Percurso de Auto-Descoberta em a Cidade e as Serras

Livro
"Da Decadência À Regeneração - Jacinto e o Percurso de Auto-Descoberta em a Cidade e as Serras"

Autora
Cristina Bernardes

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Redes concelhias BIBLIOTECAS

DREN
Direção Regional de Educação do Norte


Rede Bibliotecas de Basto e Barroso
Contactos geral@rb-bb.net
Parcerias Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, CM de Celorico de Basto, CM de Mondim de Bastos, CM de Ribeira de Pena e CM de Montalegre, Bibliotecas Municipais, Agrupamento de Escolas de Refojos, AE de Arco de Baúlhe, AE de Celorico de Basto, AE de Gandarela, da Mota, AE de Mondim de Bastos, AE do Baixo Barroso, AE de Ribeira de Pena, AE de Cerva, Escola Profissional de Fermil e Centro de Formação de Basto

Rede Bibliotecas de Esposende
Contactos luisa.leite@cm-esposende.pt
Parcerias Câmara Municipal de Esposende, Biblioteca Municipal Manuel Boaventura, Agrupamento de Escolas de Apúlia, AE António Correia de Oliveira, AE de Marinhas, AE de Terras do Baixo Neiva e Escola Secundária Henrique Medina

Rede Bibliotecas de Lousada
Contactos cm-lousada@cm-lousada.pt
Parcerias Câmara Municipal de Lousada, Biblioteca Municipal, Agrupamento de Escolas de Lousada, Escola Secundária de Lousada e Centro de Formação de Associação de Escolas de Lousada

Rede Bibliotecas de Macedo de Cavaleiros
Contactos rbmacedocavaleiros@gmail.com
Parcerias Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, Biblioteca Municipal, Serviço de Documentação e Informação do Instituto Piaget e Agrupamento de Escolas de Macedo de Cavaleiros

Rede Bibliotecas de Peso da Régua
Contactos rbpr@cmpr.pt
Parcerias Câmara Municipal de Peso da Régua, Biblioteca Municipal, Agrupamento de Escolas Dr. João Araújo Correia, Escola Profissional de Desenvolvimento Rural do Rodo e Museu do Douro

Rede Bibliotecas do Porto
Contactos rbe.porto@gmail.com
Parcerias Câmara Municipal do Porto, agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, Centro de Recursos e Investigação para a Literatura Infantil, Centro de Formação de Associação de Escolas João de Deus e Direcção Regional de Educação do Centro. Disponibiliza os catálogos dos concelhos do Porto, Matosinhos, Gondomar, Maia, Valongo, Paredes, Lousada, Penafiel, Paços de Ferreira, Póvoa do Varzim e Vila Nova de Gaia.

Rede Bibliotecas de Vizela
Contactos bmvizela@gmail.com
Parcerias Câmara Municipal de Vizela, Biblioteca Municipal Fundação Jorge Antunes, Agrupamento de Escolas de Ínfias e AE de Vizela, Colégio de Vizela, Instituto Silva Monteiro, Escola Secundária de Caldas de Vizela e Centro Cultural e Recreativo Raúl de Brandão de Infias

sexta-feira, 27 de maio de 2011

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mulheres do Mar





Mulheres do Mar

Micas Fabais
(Maria Ribeiro da Costa)


Este artigo é uma autobiografia baseada numa entrevista realizada no fim-de-semana de 04-05 de Novembro de 2006 em Cresteja-Revilhães-Candemil-Amarante e nas memórias que guardo da Micas, desde o dia em que nasci.
Com rigor e isenção vou transcrever as palavras soltas e memórias ditadas por esta mulher de Matosinhos, que com oitenta anos de idade revela uma frescura física e clarividência intelectual dignas de admiração.
Graças a João Ribeiro da Costa, pescador, Albina Rosa deu à luz uma bela menina em 18 de Maio de 1926 (6 de Julho,segundo a certidão de nascimento), a quem chamaram Maria Ribeiro da Costa, mais tarde e ainda hoje, conhecida por MICAS FABAIS. Moravam na rua Heróis de França, onde nasceu, e haviam casado catolicamente na Póvoa de Varzim. Neta paterna de Francisco Ribeiro da Costa e Ludovina Rosa e materna de Manuel André Bicho e Rosa Margarida. Foi solenemente baptizada, em Matosinhos, pelo Abade António d´ Azevedo Maia em 8 de Agosto de 1926, tendo como padrinhos Francisco dos Santos André, pescador e Maria Lopes Sarrão, casados “moradores nesta vila, que não assignam este assento por não saberem escrever”.
Casou em Leça da Palmeira com Francisco Lopes de Matos às 15 horas do dia 18 de Dezembro de 1949, sendo a cerimónia realizada pelo Padre Alcino. Tinha 23 anos de idade. Infelizmente, nunca tiveram filhos. O senhor Francisco – Chico, como eu lhe chamava – era filho de João Lopes Matos e Alexandrina Matos. Nasceu na Murtosa em 14 de Junho de 1926 e faleceu em Matosinhos, em 16 de Janeiro de 1981, com 54 anos de idade; vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). A Micas não voltou a casar, nem a ter qualquer outro homem na sua vida, apesar das solicitações. Depois de viúva ainda trabalhou durante mais 3 anos, como salgadeira, na fábrica de conservas “Poveira”.
A sua infância decorreu na companhia dos pais, irmã, Inácia Ribeiro da Costa, que tinha 18 anos de idade quando a Micas nasceu e do irmão António Ribeiro da Costa, que casou com cerca de 17 anos de idade.
Frequentou a Escola Primária Viela do Piolho até à 3ª classe, mas o insucesso levou-a a abandonar o ensino. Daí em diante, apenas lhe restava uma solução - ingressar no mercado de trabalho. Mas, a Lei vigente exigia que o cidadão tivesse 14 anos de idade. Bom, “a barriga só conhece uma lei! Comer é uma necessidade que não pode ser datada por Decreto-Lei. E, assim sendo, começou a trabalhar com 12 anos de idade (em 1938) na fábrica de conservas “Alba”, como salgadeira, onde permaneceu durante 17 anos (até 1955), após os quais passou a laborar na “Poveira”, nos 29 anos seguintes (até 1984), mantendo-se como salgadeira, e passando a ganhar à comissão. Ganhava 3 tostões por caixa. Chegou a salgar 1500 cabazes e a carregar as respectivas caixas na camioneta que seguia para a fábrica, na Póvoa de Varzim. Um cabaz enchia uma caixa de madeira, aproximadamente. Os patrões eram o Sr. Graciano e o Sr. Matos. O Sr. Graciano (poveiro) dava instruções à compradeira (Guida do Almocreve), quanto às quantidades a adquirir, e ia embora.
Em 1947, com 21 anos de idade declarou-se no Grémio das Conserveiras, ano em que a Caixa de Previdência abriu filial em Matosinhos.
Naquela época, finais dos anos 30, Matosinhos era, provavelmente, o maior centro conserveiro do país, e quiçá do mundo, a julgar pelo número e tamanho das fábricas de conservas existentes, nomeadamente, a “Alba”, “Sicma”, “Marques Neves”, “Universal”, “Fábrica Guedes”, “Aguiar Pedroso” (dos Aguiares), “Fábrica Velha” (do Adão Polónia), “Fábrica Chaves”, “Activa” (dos Serranos), “Boa Nova”, “Marques Gomes”, “Record” (na qual a “companheira” era a senhora Maria Teresa que ensinou Micas Fabais a fazer malhas), “Prado”, “Maranteiro” e outras cujos patrões eram algarvios, como “Francisco Alves”, “Caveira”, “Unita” (na qual a “compradeira” era a Ti` Maria Cambeixa e a “salgadeira”, a Linda), e “Dias Araújo” (cujos patrões eram proprietários das traineiras “Portugal IV” e “Portugal VII” que descarregavam o peixe em “Leixões”, e nas quais aquele que viria a ser o marido da Micas chegou a ser tripulante da companha. Das fábricas então existentes, apenas continuam em actividade a dos “Pinhais” (que ainda “faz tudo à antiga”), a “Ramirez” e a “Pátria” (que faz apenas conservas de azeitonas). Eram 21, são 3! Recorda a Micas com nostalgia.
Não esqueçamos que Matosinhos foi “o maior centro piscatório do Mundo!”, conforme este mesmo boletim que está a ler, no seu nº20 (Outubro de 2005).
O dia de trabalho da “Mulher do Mar” chegava a ter a duração de 17h, apenas interrompidas para “mastigar alguma coisa”. A Micas às 7h da manhã estava na “Praia da Sardinha”, onde salgava até às 11h, quantas vezes até às 15 ou 16h. Depois ia para a fábrica (“Alba”). Num dia normal, às 13h ia almoçar a casa. Às 14h recomeçava o trabalho na fábrica e às 19h ia a casa jantar, para, quantas e quantas vezes, regressar à actividade laboral entre as 20h e as 24h. Chegava a casa, comia algo, lavava-se e deitava-se, depois de rezar.
No dia seguinte, às 7h da manhã, estendia as caixas de madeira na areia da “Praia da Sardinha”, onde os pescadores colocavam a sardinha que traziam nos cabazes.
O Sr. Maia – comprador da “Alba” – adquiria os cabazes que os patrões pretendiam, 100, 200, por vezes mais cabazes.
As traineiras aproximavam-se da praia o mais possível. As chalandras faziam o transbordo da sardinha até à praia, donde 2 pescadores da companha transportavam ao ombro o bordão com 3 cabazes, acompanhados pelo virador que despejava o peixe vivinho nas caixas de madeira alinhadas na praia.
A Micas e a Inésia salgavam de imediato a sardinha. Vinha a camioneta, carregavam-na e a viagem de ida e volta até à fábrica era efectuada tantas vezes quanto o necessário. No fim, deslocavam-se para a fábrica a fim de participarem nos trabalhos necessários.
Quando o peixe chegava à fábrica, as mulheres (uma por cada caixa) descarregavam a camioneta e despejavam a sardinha nas mesas de madeira. As fabricantas cortavam-lhe a cabeça e metiam-na num cesto de verga que depois de cheio era vertido num pio de cimento a todo o comprimento da fábrica, onde ficava em moura (tempero de água e sal).
Em seguida, um homem – o fabricante – pegava num cesto e retirava o peixe do pio; as mulheres despejavam-no novamente na mesa e engrelhavam a sardinha que era lavada nos pios e transportada em carrinhos empurrados por um homem, para cozer a vapor numa estufa aquecida por uma caldeira através de um fogueiro. Depois retiravam os carrinhos com um gancho e levavam-nos para secar o peixe, junto às enormes portas da fábrica – o ar da rua é que secava o peixe já cozido.
Depois de seco ia para a secção de enlatar. As mulheres sentadas numa banca, com a lata à frente, retiravam a sardinha da grelha e colocavam-na dentro da lata, uma de lombo, uma de barriga, uma a direito e outra de rabo.
A levantadeira pegava na lata e fazia lote em cruz, levando os lotes ao azeite, onde uma mulher mergulhava as latas no azeite e, num aparador as levava para cravar. Aí, uma outra mulher metia a tampa.
A Micas desempenhou todos os trabalhos inerentes à sua condição de mulher, se calhar demasiados para uma pessoa só, o que, um dia, a levou ao seguinte desabafo:
- “Rai’s parta a minha sorte, qu’inda agora venho da praia e já tenho que vir p’ra aqui!”
A vida era dura. Por vezes apetecia desistir. Mas… o processo de fabrico não podia parar! O descanso não era produtivo.
Depois de cravada, a lata ia para a estufa, afim de a sardinha cozer no azeite. Seguidamente, era colocada numa máquina tipo escada rolante e aí passava numa queda de água para lavar a lata que caía num monte. Pelo toque de duas latas sabiam se estava fechada ou não, ou seja, se tinha azeite para conservar o peixe.
Passado o teste, as latas eram acondicionadas em caixas de madeira que seguiam para o armazém, aguardando a possibilidade de serem comercializadas.
A Micas era alta e calçava socos; vestia uma bata bege e por cima um avental branco de lona.
“Era assim a vida na fábrica”, disse ela.
Os seis tostões por hora eram bem merecidos; suados até ao tutano.
Quando, hoje em dia, cumpro o ritual de abrir de uma lata de conserva e pela minha mente passa todo este processo, ao saborear o fruto de tanto trabalho sinto que estou a degustar um manjar dos deuses. Por favor, não deixem morrer esta tradição! Uma fábrica destas é mais do que uma simples criação de postos de trabalho … é a garantia de que podemos ter o mar à nossa mesa.
Não posso deixar de dizer que a vida não lhe foi fácil nem risonha, mas os momentos de alegria, labor, convívio e aceitação por parte de todos aqueles que tiveram, e têm, a felicidade de cruzar os seus passos, com certeza fazem com que aqueles momentos mais difíceis sejam secundarizados e relegados para segundo plano, apenas emergindo na taciturna solidão do entre quatro paredes, quando, já depois do pôr-do-sol, regressava a casa e por entre um parco jantar se preparava para rezar antes de dormir. Com o nascer-do-sol rezava e o sorriso de quem tem pela frente um dia cheio de afazeres, surgia-lhe e rasgava-lhe a face de lés-a-lés. Lá ia a Micas Fabais!
A religiosidade nas gentes do mar é a convicção de que não estamos sós no Universo. Deus existe, criou-nos e gosta de nós.
Nos seus treze anos de idade era costume as mulheres estarem sentadas numa caixa de madeira, no areal, enquanto esperavam os barcos que, ao serem observados na entrada da barra, lhes traziam a garantia de sustento. Ainda não havia os faladoiros (altifalantes que na doca de pesca anunciavam a chegada dos barcos).
Era Abril, e nas suas caixas, estavam sentadas as vendedeiras todas – Adelaide Gomes Ferreirinha (Adelaide Tarré), Ti Rosa do Malhão, Ti Arminda do Caetano, Ti Guida do Bendito, Emília Caseira, etc. – e eis que entra um barco – o Santo António do Monte – carregado de carapau, peixe que na época “andava pelo ar e ia para o lixo” e, de repente…
- Oh Ti Margarida Mulata vem aí a Senhora da Lapa – disse a Micas – Hui … vem carregada de carapau. E nós era só sardinha. Estava o povo à espera que viessem os barcos… vinham de muito longe.
E, com as mãos cruzadas, disse a Ti Margarida Mulata:
- Ai meu Deus que está tanta gente. Eu, hoje, fazia um rico dia!
Referia-se ela ao peditório, que por vocação fazia, para enfeitar de flores o altar do Senhor Morto, aquando da romaria do Senhor de Matosinhos que teria lugar daí a um mês, em Maio. A sua área de recolha de fundos era a Praia da Sardinha, após o que entregava o dinheiro ao zelador – o Ti Ricardo – que pedia na vizinhança da Rua Silva Pinheiro, onde morava. A Ti Rosa Alegre, viúva, faleceu em 2000, quase com noventa anos. Era muito amiga da minha avó paterna – Adelaide Tarré. Pedia na Rua D. João I e arredores – hoje em dia, a Micas faz a mesma zona – desde a Rua Brito Capelo até ao café Lua.
Antes do Ti Ricardo, o zelador era o Teodoro (sacristão) que faleceu dos pulmões. Já no leito da morte pediu ao Ti Ricardo – na época catequista – que ficasse como zelador.
- Morre descansado que eu tomo conta! - prometeu ele.
A Micas abraçou esta honrosa missão por brincadeira. Ainda sentadas nas caixas, vendedeiras e salgadeiras aguardavam a chegada de um barco com sardinha, enquanto falavam da sua vida e faziam croché. Quando a Ti Margarida Mulata disse – Eu, hoje, fazia um rico dia – a Micas, de repente, afirmou:
- Dê-me a saca!
Era uma saca de chita que ainda hoje tem na sua posse.
- Oh minha rica filha, tu vais com a saca?
A Micas arrumou a lã e pediu à Mina (irmã do Regufe e salgadeira do Dias Araújo) que a acompanhasse.
- Ai, eu não vou! – disse a Mina.
- Oh, então eu não vou. – esmoreceu a Micas.
E a tia da Mina (Encarnação, que morreu com quase cem anos) disse, num tom esperançado.
- Vai mulher, vai com ela.
- Anda Mina. - Insistiu a Micas.
- Eu vou para te fazer companhia. Eu não peço – disse ela.
Para lá do trilho do comboio não iam pedir.
- Bote aqui qualquer coisinha para o senhor de Matosinhos – dizia a Micas para quem passava.
- E para a minha terra quem bota? – retorquiu um forasteiro.
Mas, lá iam metendo uma moedinha de 5 tostões, 25 tostões, 5 escudos… 10 escudos já era um milagre!
- Vamos embora que já temos um ror de dinheiro. – disse a Mina.
Entretanto, ao micro, ouviu-se uma voz que dizia: - Micas da Alba às caixas!...
Andava no trilho a pedir. Correu. Quando chegou às caixas já lá estavam os pescadores com os bordões do peixe.
- Salguei e fui para a fábrica… e tudo se passou.- segredou-me ela.
- Entretanto, cheguei à fábrica, a pé, e pergunto para onde vou à capataza (Sara, que eu tratava por Sarinha) e ao Anacleto que era o mestre da fábrica, e ela disse-me assim - Vai para o azeite… que era para as cravadeiras!
- Rai`s parta a minha sorte. Ainda agora venho cansada de carregar peixe e já vou para ali! – resmungou a Micas.
- Mas não vais, porque estão a chegar ao escritório o Sr. Alves da Silva (patrão) e o Sr. Acácio (patrão) que pediram para lá ires. – disse a capataza.
- Eu que fiz para ir ao patrão? – perguntou a Micas preocupada.
- Não sei filha.
Acto contínuo, a Micas começa a chorar.
- Não fiz nada. Nunca tinha sido chamada ao patrão.
Os colegas diziam-lhe: - Não chores. Não fizeste nada. Porque estás a chorar? Será para outra coisa.
Subiu ao escritório e vendo-os sentados perguntou: - Dá licença?
- Entra! – respondeu o patrão.
Entrei… virou-se para mim e disse-me assim:
- Sabes para o que te mando chamar?
- Eu não! Não fiz nada!
- Não fizeste nada?!
- Eu não.
- Então aonde estavas quando o Sr. Maia comprou o peixe e tu não estavas no local de trabalho? Foi preciso chamar-te ao micro!
- Ai, foi por isso que o Sr. Maia me chamou aqui à presença do Sr. Alves da Silva?
- Sim, foi porque eu quero saber porque abandonaste o trabalho!
- Oh, Sr. Alves da Silva, eu fui pedir!
- Pedir?!
- Sim, pedir. Não estavam barcos com sardinha!
- Pedir para quem?
- Os barcos vieram com peixe e a Ti Margarida Mulata não podia… e eu fui. Eu fui para as flores do Senhor de Matosinhos, para o altar do Senhor Morto.
- Para o altar do Senhor de Matosinhos?
- Não, para o altar do Senhor Morto! Olhe, foi o que eu fiz. Pensei que me tinha chamado por o Sr. Maia lhe ter feito queixa de mim… quando eu enchia os sacos de peixe aos irmãos para vender na loja (tasca) do Flinto (Casa de Pasto)... Viraram-se um para o outro (os patrões) e disseram:
- Até foi bom tê-la chamado! Olha, tens aí a saca?
- Não.
Pegaram em mil escudos, cada um, e deram-lhe para meter na saca, enquanto afirmavam – Ficas autorizada a ir pedir quando não houver peixe nas caixas.
O Sr. Maia, de tarde pelas 16/17 horas, foi à fábrica. Ia dar a volta… verificar se o peixe estava em condições. A Micas ia a meter o tabuleiro no azeite, quando o viu por cima do ombro. – Olhe, quando não houver peixe, estou autorizada a ir pedir e quando for precisa têm que me chamar ao micro. - Atirou-lhe com os sacos de sardinha dos irmãos.
No outro dia, a Ti Margarida conta o dinheiro e tinha 7 contos! A Micas meteu mais 2 contos.
- Oh, minha filha… que já tem dinheiro de sobra para as flores. Deus te dê boa sorte, que te dê um homem que te trate bem.
- Mas, amanhã eu vou pedir outra vez. Agora tenho ordem! – insistiu a Micas.
A Ti Margarida entregou o dinheiro ao Ti Ricardo (zelador do altar do Senhor Morto) e foi, pessoalmente, à fábrica agradecer ao Sr. Alves da Silva.
- Não tem nada que agradecer… (a Micas) está autorizada a pedir – respondeu ele.
- Ela onde está? – perguntou a Ti Margarida.
- Acolá!
Dirigiu-se a ela, abraçou-a e agradeceu-lhe.
Naquela época, com 7 contos enfeitava-se o altar.
Aos 17 anos de idade, decidiu abraçar, definitivamente, a missão. Juntou 15 escudos no 1º dia. Eram necessários 17 ou 18 contos para enfeitar o altar durante todo o ano, mas com 10 ou 11 contos já se tinha um altar muito rico no momento das festas.
Após o casamento com o Chico (Francisco Lopes de Matos), este proibiu o peditório, por volta dos anos 60.
- Não… não acabou! Enquanto for viva… vou! – respondeu-lhe a Micas peremptoriamente.
Moravam na Rua 28 de Maio, 156 – Rua 1º de Maio, após o 25 de Abril de 1974. A senhoria era Adelaide Tarré (Adelaide Gomes Ferreirinha, que nasceu em 9 de Maio de 1907 na Travessa Serpa Pinto e faleceu em 13 de Novembro de 1979, casada com Emílio Taineta – Emílio Ferreira Patrício - , em 28 de Janeiro de 1932). – Oh, Sr. Francisco não se dê mal por causa disso – afirmou ela debaixo da ramada do quintal.
- Não tenhas vergonha. Não vou pedir para nós…nem para comer…graças a Deus – referiu oportunamente a Micas.
Estiveram casados 31 anos.
- Vê-de lá o marido que esta senhora arranjou – retalhou, uma vez, o Padre Fabião, algures entre finais do Sec. XX e princípios do Sec. XXI, num momento em que a Micas contava toda esta história às crianças que, sentadas na Igreja Paroquial de Matosinhos, a ouviam atentamente. – Esta senhora é um exemplo de humildade e dedicação à Igreja. Não tenham vergonha de servir a Igreja no futuro.
Mas, a história não acaba aqui. Quando a Ti Margarida Mulata ( irmã do Ti João da Mulata) adoeceu, pediu à Adelaide Tarré que dissesse à Micas para a ir ver. Estava já muito doente e a Micas já era viúva.
- Olha, eu já não posso trabalhar. Vai na mesma pedir – lamentou-se ela no seu leito.
- Oh, ela vai! – retorquiu a Adelaide Torré, dando-lhe aquela saca de chita. Pegou nela, e até hoje mantém-se a pedir.
- Já que vem pedir, vem ajudar! – dizem-lhe, por vezes, as pessoas em tom amigável, ao que ela acede com alegria.
A Ti Rosa Alegre, algum tempo antes de falecer, sofreu uma queda grave. Depois de recuperada, foi a casa da Micas pedir-lhe que a acompanhasse pelas casas onde pedia, dizendo que, quando não pudesse fazê-lo, seria a Micas a substitui-la. Assim foi, após o seu falecimento, em 2000. Entretanto, face às circunstâncias, o Ti Ricardo solicitou à Micas que tomasse conta do altar, porque, afinal, era ela quem arranjava o dinheiro. – Oh, isso não! – respondeu ela.
- Faça… faça, Micas – insistiu ele.
A Micas Fabais disse sempre que não. Pouco antes de falecer, o Ti Ricardo adoeceu gravemente e o Padre Fabião foi visitá-lo. Foi, então, que o Ti Ricardo lhe rogou que pedisse à Micas, após o que esta cedeu. O Ti Ricardo viria a falecer nas vésperas do Natal de 2002 e a Micas Fabais passou a ser a zeladora do altar do Senhor Morto, na Igreja Paroquial de Matosinhos.
Em 2006, as flores do altar mais caro custaram 700 contos (cerca de 3500€).
Voltando atrás no tempo, ao momento em que a Micas começou a trabalhar, a pesca era efectuada com base na observação dos elementos naturais. – Antigamente era à proa, pelos mascatos. E, assim, sabiam que havia peixe – disse ela.
- Bota ao mar – gritava o homem da proa. A rede era lançada ao mar. A companha fazia 6 ou 7 lanços. – concluiu.
Naquela época, o Chico andava com os bordões. Aos 14 anos de idade (em 1940) tirou a cédula marítima. Não a podiam obter antes. Fazia parte da companha da traineira “Pardela”, cujo responsável era o Mestre Manuel da Afurada.
Nos anos seguintes, a Micas e o Chico viam-se quase diariamente e quando tinham 18 ou 19 anos (em 1944 ou 1945) começaram a namorar. Foi na Festa da Senhora da Hora, que ocorre duas semanas antes do Senhor de Matosinhos. Os dois pouco dançavam e ficaram a falar…e foi desde aí.
Em 1947, a Micas foi a Fátima a pé pela primeira vez, 30 anos após o aparecimento da Nossa Senhora aos pastorinhos. Tinha 20 anos de idade. No 1º dia “ iam sem rumo até Ovar”.No percurso, um soldado que integrava o grupo, queria desistir. Não falava, por promessa, e os pés estavam cheios de bolhas. Era a Micas que o tratava. Conseguiu convencê-lo a peregrinar até Fátima. Levavam consigo a roupa do corpo e acartavam à cabeça, louça e cobertores. Manteve esta peregrinação, ininterruptamente, durante os 29 anos seguintes.
Naquele ano, uns meses mais tarde, de repente o “mundo desabou a seus pés”.Era a fatídica noite de 1 para 2 de Dezembro de 1947. O seu pai faleceu no naufrágio. João Ribeiro da Costa era o nº 14 com a matrícula 6229 da Capitania da Póvoa de Varzim. Morreu afogado junto à Praia de Francelos, na traineira São Salvador nº P447C, matriculada no dia 26 de Novembro 1947, na Capitania do porto do Douro , ou seja, 7 dias antes do naufrágio. O mestre era o Tio Manoel da Cunha Fôlha – Malha Lassa. Segundo informações morreram todos os pescadores. Era uma traineira a vapor com uma tonelada bruta de 61,67 toneladas.
A notícia da tragédia rapidamente se espalhou. As mulheres aos gritos e com as crianças ao colo, corriam noite fora em direcção à praia. A Micas, com os pés na areia procurava o pai - Davam sinal aos filhos - acreditava ela. Esteve 7 dias sem sair de casa, tamanha era a mágoa, e manteve luto por 5 anos.
Entretanto, a vida continua. O Chico andava com os bordões, após o naufrágio. - Mas, quando veio os radares ele foi com o mestre para o radar – esclareceu a Micas. Era o Mestre Dionísio do Mar da traineira Laura Maria. – O radar estava na casa do leme. Tirou-o do bordão e meteu-o a virador…mas não dava cabazes – disse ela. Era usual darem um cabaz à salgadeira por cada 100 virados para as caixas.
Entretanto, casam-se.
Às 14/15 horas o Chico saía para o mar e ao passar na praia despedia-se da Micas, quando ela estava a salgar. – Por vezes, chegava a casa por volta das 13 h do dia seguinte…mas havia ocasiões em que nem sequer vinha a casa – disse ela. Utilizava um saco de cabedal, comprado na “Gónia”, onde transportava num “termos” a sopa e a comida, para além do pão e da garrafinha de “Água de Castelo” com vinho.
O primeiro casamento a que o casal assistiu ocorreu em 22.Jan.1961. Casavam António Gomes Ferreira Patrício e Maria Amélia Lopes da Fonseca – meus pais e ambos filhos de pescadores. A Micas foi, então, a primeira vareira a usar um casaco comprido, preto com uma pele também preta. Mais tarde, ofereceu o casaco à sobrinha Carmina e do vestido azul petróleo fez uma blusa.
Conhecer o passado é ter a certeza de que o presente está vivo, porque sem passado não haveria presente. “Memories are memories”. Aquilo que somos hoje é fruto do passado dos nossos ancestrais. Prestar-lhes homenagem é apenas dizer-lhes que agradecemos do fundo do nosso íntimo, o facto de terem existido. Numa existência que foi sobrevivência contra ventos, rumos e marés…mas que nos trouxe até cá, até hoje…a bom porto.
Apesar de este artigo ir já bastante longo, não consigo deixar de relatar mais um episódio da vida desta fabulosa mulher.
Como já disse, em finais da década de 1930 ainda não existiam os “faladoiros” (altifalantes que, espalhados pela praia, anunciavam a hora de chegada dos barcos, a espécie que haviam pescado e as quantidades, bem como outras notícias de interesse). Não sei bem em que ano foram instalados, mas, a partir de então os comunicados passaram a ser feitos pelo Sr. Almeida, que era o porta-voz da Rádio Matosinhos/Pesca, situada na Av. Serpa Pinto.
- Quando os barcos andavam à rola, o Mestre Caravela, conhecido pelos seus dotes de fadista, aproveitava para animar o recinto da “Praia da Sardinha”, cantando, entre outros, o fado “Lá vão elas / Naus de Infante a navegar/ Unidas, as caravelas / Por sobre as águas do mar / Lá vão elas…”, - trauteou a Micas. Acabou por ser proibido de o fazer, pelo Comandante da Capitania do Porto de Leixões, o qual protagonizou, anos mais tarde – por volta de 1952 – um outro episódio que envolveu, para além do Mestre Caravela, o próprio Chico, o meu tio João (João Rodrigues Crista), o Tone Regufe e o Zé Brandão.
Naquela época, os barcos saíam para o mar a qualquer hora, ao Domingo. - Às 13 ou 14 horas se fossem para o Mar da Figueira; às 18 ou 19 horas se fossem pescar para mais perto. Era conforme calhava - disse a Micas.
Reunidos no Café Abel, decidiram que, aos Domingos, deviam sair às 10 horas da noite. O Comandante da Capitania apoiou-os mas …. vá-se lá saber porquê … logo os denunciou à PIDE, citando dois nomes – Chico e Mestre Caravela.
- O Caravela estava a comer. Chamaram-no cá fora e levaram-no preso. Esteve 10 dias na Cadeia da Rua dos Caldeireiros – referiu a Micas.
Por coincidência, o Chico escapou da prisão, porque acabara de embarcar na “doca nova”, rumo à Venezuela. Viajou no navio de cruzeiro “Serpa Pinto”.
Este desfecho remonta à década de 1940. O Chico não queria ir à tropa, mas na inspecção militar foi chamado para a Marinha. O pai tudo fez para o livrar. Em 1947, deu 50 contos (!!!) a um soldado. Acabou por não ir para a Marinha, mas foi para Tancos, onde chegou a 1º Cabo. Quando os da sua incorporação vieram embora, ficou mais 3 meses para dar instrução. Decorria o ano de 1949.
Entretanto, o pai do Chico que era pescador, decidiu emigrar para a Venezuela. – Andava p’ra lá! Não sabia pregar um prego. – comentou a Micas. Quando um primo do Chico, que também tinha emigrado para aquele país da América Latina, regressou, disse-lhe que o pai não estava bem. Era filho único e não gostou de saber que o pai se encontrava em tão precária situação. Com 25 anos de idade foi lá buscá-lo! Trabalhou durante 3 anos a limpar piscinas afim de arranjar dinheiro para trazer o pai. E, assim, escapou de ser encarcerado pela PIDE. Há males que vêm por bem! - diz o povo.
Em 1960, alugou a casa que habitou até Julho de 2006, momento em que decidiu ir viver para o Lar de Idosos da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos – Instituição Particular de Solidariedade Social – que tem como Presidente o Sr. José Brandão (acima referido como Zé Brandão). É a sócia Nº42. Bem hajas, Micas Fabais!
Não posso terminar este artigo sem referir o prestimoso e inigualável serviço que o NAPESMAT tem prestado aos pescadores de Matosinhos e às “Mulheres do Mar”, em particular; bem como à cultura da nossa terra, em geral. Continuem de mangas arregaçadas…o vento está de feição! Só nos falta o “Museu do Pescador e das Artes de Pesca” e a vontade política para o concretizar. As memórias, vocês conseguiram escrevê-las!
P.S. Peço desculpa por tratar alguns personagens por “TU”, mas foi assim que a Micas Fabais se lhes dirigiu ao longo dos tempos.


Prof. António Patrício

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Casa dos Pescadores de Matosinhos















Azulejos da Sala de Espera da Casa dos Pescadores de Matosinhos

N A P E S M A T - Núcleo de Amigos dos Pescadores de Matosinhos















N A P E S M A T - Núcleo de Amigos dos Pescadores de Matosinhos

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Serena e/ou Sereia




Trabalho de Noémia Travassos 90 X 70 cm


quinta-feira, 12 de maio de 2011

Peça de Teatro - "O quadrado roda como a circunferência"









PEÇA DE TEATRO:


"O Quadrado roda como a Circunferência" retorna aos palcos; desta vez no Auditório Mirita Casimiro/Viseu, pelas 21h30, no âmbito do festival de Teatro Jovem 2011.