sexta-feira, 27 de junho de 2008

terça-feira, 24 de junho de 2008

Educação Arte e Cidadania

O Auditório da ES/3 Latino Coelho, em Lamego, vai ser palco de uma sessão pública de apresentação do livro "Educação, Arte e Cidadania", da autoria de Álvaro Laborinho Lúcio, no próximo dia 1 de Julho de 2008, terça-feira, pelas 17:00h.

Constitui, esta, uma abordagem – apenas uma entre várias possíveis – da relação entre Educação, Arte e Cidadania, trabalhada, aqui, a partir do exterior e sustentada, tão só, numa legitimidade própria do cidadão interessado em temas e problemas que tendem a marcar o fundamental do seu tempo.Por isso que se desenvolva à maneira impressionista, sem o rigor do traço neo-clássico, mas com o deslumbramento da luz que vem de fora, que estimula os sentidos e que permite olhar a “Educação Artística” e a “Educação para a Cidadania”, nas nossas escolas, com a “Impressão” de um novo “Sol Nascente”. Álvaro Laborinho Lúcio

http://videos.sapo.pt/fbmwyFzYDkD96FbcU0r0

Arménio Vasconcelos e a Casa-Museu Maria da Fontinha




Arménio Vasconcelos - Natural de Além do Rio, concelho de Castro Daire, Portugal, filho de José de Abreu Vasconcelos e Alzira do Carmo do Rosário, casado com a Dr.ª Maria Lucília Marques do Rego de Vasconcelos, tem dois filhos: Luís Filipe do Rego Vasconcelos, casado com a Dr. Paula Alexandra Ferreira Ambrósio, empresários; e João Pedro do Rego Vasconcelos, Adjunto do Primeiro-Ministro de Portugal. Tem duas netas: Inês Filipa e Rita Alexandra.Fundador e Director da Casa-Museu Maria da Fontinha;
Licenciado em Direito e Engenheiro Técnico Agrário, por Coimbra;
Membro ord.º do Conseil International des Musées, da UNESCO;
Membro da Associação Portuguesa de Escritores;
Presidente do Elos Clube da Região de Leiria;
Mestrando em Museologia;
Cidadão Honorário do Rio de Janeiro.

São de sua autoria as seguintes obras:
- “Juntos por Lorosae”; edição da Jorlis, participação;
- “Notas sobre a vida e obra do Padre António Vieira”; edição do autor, 2002, (esgotado);
- “Para além do rio”, edição da Liga de Amigos da Casa-Museu Maria da Fontinha, Maio de 2004;
- “Na Hélade, em busca do passado”, edição da Liga de Amigos da Casa-Museu Maria da Fontinha, Julho de 2004;
- “De Leiria partidos Em mim presentes”, edição da Folheto Edições & Design, Setembro de 2004 (3.ª edição, em Setembro de 2005);
- “Ao encontro do Azul”, edição da Folheto Edições & Design, Novembro de 2005 (2.ª edição, em Fevereiro de 2006);
- “Que Quinta na Vila de Noel”, edição da Folheto Edições & Design, em co-autoria, Dezembro de 2005.
- “Carlos Gomes, pintor da Luz”, edição da Liga de Amigos da Casa-Museu Maria da Fontinha, Abril de 2006.

domingo, 22 de junho de 2008

O Que Há De Comum - Uma Antologia


ARMANDO PINHEIRO nasceu no Porto, em 1922. Médico e reputado poeta. Publicou mais de uma centena de livros de poesia e organizou o volume Sonetos Portugueses. Licenciou-se em Medicina, pela Faculdade de Medicina do Porto, em Julho de 1945. Foi Interno na Estância Sanatorial do Caramulo desde 1945 até 1947. No regresso do Caramulo, foi Médico Auxiliar e depois Broncologista no Sanatório Rodrigues Semide, onde criou o Serviço de Broncologia. Chefiou o Serviço de Broncologia do Sanatório D. Manuel II, entre 1955 e 1970. Foi director do Serviço de Cuidados Intensivos do Hospital de Santo António. Nele trabalhou desde a sua criação (1962) até à sua aposentação (1984). Publicou muitas dezenas de trabalhos médicos, alguns em revistas estrangeiras (França, Espanha, Holanda). Proferiu lições na Faculdade de Medicina do Porto, no Hospital de S. João, no Porto e em Lisboa. Em Maio de 1998 foi condecorado com a Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos. Em Novembro de 1999, foi condecorado com a Medalha de Ouro da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

O Corpo vivo da poesia de Armando Pinheiro, tal como surge diante dos meus olhos de leitor de versos, organiza-se segundo duas marcas fundamentais: por um lado, o rigor e a autoconsciência e, por outro, a emoção dos sentidos e a emoção do pensamento, isto é “a vida toda num único poema”: a vida da poesia ao mesmo tempo que a múltipla vida da própria vida. (…) Poeta das emoções (no complexo sentido que antes ficou esboçado), Armando Pinheiro é também um poeta do pensamento, e a conclusividade perplexa e sage é, do mesmo modo, outra das marcas centrais da sua poesia. O facto de ter resistido até tão tarde a publicar um livro é talvez um sinal da manifesta imperatividade interior desta poesia, a sua sábia e funda humildade sendo, pois, não afectação (nem sequer “fingimento sentido”, como Pessoa diria), mas expressão de maturidade humana e intelectual, de vivida vida longamente acumulada na razão e no coração que, subitamente, pelo singular milagre da poesia, pode cristalizar num verso: “Quanto sol e quanta chuva são preciosos/ para amadurecer uma única uva!”. (Do Prefácio de Manuel António Pina)

sábado, 21 de junho de 2008

Saré Cantá

«(…) Saré Cantá era, no início do século XIX, uma das ilhas cheias de esplendor com uma dezena de léguas de farrobe, pau ferro, amendoim e poilão. Habitam-na pescadores do rio Grande, marinheiros, grumetes, franceses, portugueses e africanos, um arco-íris de povos e cheiros. Os ofícios na agricultura eram sempre penosos, mas esta civilização do trabalho contara com a dimensão essencial da vida humana. Mulheres e homens promoveram o bem comum e aumentaram a herança de toda a família, provocando transformações na natureza e introduzindo alterações profundas na cultura do povo.
Quem por ali viajava de barco, pelos estuários, nos braços do grande delta, pelas margens dos rios, ou a pé, olhava ao longe as choupanas, comungava os sonhos dos anjos e tocava na única luz helénica dos céus. Nesta cultura comunitária sobreviveram os deuses para testemunhar e delegar os reinos celestes. Os homens lutaram entre si e contra os outros. Mas também lutaram contra a natureza, esposaram-na, fundiram-se com ela, com amor e ódio. Da terra arrancaram os produtos, a sobrevivência, o conduto, a solidão, a rudeza. O trabalho era, assim, condição do homem, que através dele contribuía para a obra da Criação. Em Saré Cantá o trabalho constitui uma dádiva, o povo acredita no que diz o chefe da tribo: «com o suor do teu rosto comerás o pão, até que regresses à terra da qual foste tirado».
Era urgente o sacrifício, o ritual e o renascimento.
Escondida na alma da floresta africana, esta histórica terra primitiva ainda vivia sob a protecção do chefe da tribo Cantá. Almamy, o velho sábio, tinha as feições um pouco rudes, a testa franzida e o corpo esguio. Envergava uma tarjeta de pano. À volta do pescoço usava um colar de missangas com três cruzes brancas. Tinha a alma à flor da pele. Opunha-se às injustiças e às doses de hipocrisia dos poderosos que oprimiam e escravizavam outros seres humanos. Como todos os homens da ilha, que no meio do sofrimento do amor choram com os deuses do outro lado do rio Geba, também ele tivera de padecer o mesmo ritual de Saré Cantá, numa esperança cíclica de purificação.
A akasha de Saré Cantá é a maior celebração dos ilhéus ao redor dos deuses. Todos partilham, uns com os outros, o pão da ilha da terra vermelha. Rogam pela chuva sagrada, para que as suas plantações não sequem e os seus peixes não morram. Durante dias, o eleito pedirá perdão por todos e terá que se isolar na ilha, onde só os deuses vivem em pleno na floresta sagrada. Ali, as árvores permanecem eternas. É ali que o infinito reside. Uma celebração que une os povos para comemorar o renascimento de uma nova vida.
Para fertilizar os corações fora escolhido o Abbá. Missionário e portador da esperança, símbolo da origem da paz. Uma nova forma humana começou então a surgir. Com os olhos mirrados, longas barbas e cabelos longos, tinha um aspecto imaculado. Numa resignação pura, o segredo que transportara dentro de si era a de uma missão de amor e fraternidade. Caminhou descalço pelas feitorias, comeu jejum e raízes, enterrou a cólera dos nativos, ofereceu o perdão e a amizade. Envelhecia rapidamente para dar lugar a uma nova vida. A sua semente germinava, vindo a materializar-se em pleno junto ao rio, no outro lado do Geba.
No recinto sagrado das almas, os Iniciados fizeram silêncios e sobre a frondosa vegetação, as chuvas caíram, finalmente.
Durante três dias e três noites, na terra das palavras, plantaram-se folhas de seda. Sete abraços enfeitaram pedaços da terra do céu. Sete liras cantaram melodias junto de Abbá e Almamy.
Por fim, as almas renasceram.
Na madrugada seguinte, o azul e o verde surgem dispersos no horizonte. Renasce o odor da terra. Tudo tinha mudado. (…)» C. Correia

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Germana Tânger no Câmara Clara

Grande Mestre e deslumbrante Mulher com 88 anos e muitas memórias para contar!
GERMANA TÂNGER foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante 25 anos. Apresentou o programa semanal «Ronda Poética», na RTP. E em 1948 iniciou um longo percurso durante o qual divulgou por todo o mundo grande parte dos poetas portugueses, através de muitos recitais que realizou. Os poetas do Orfeu foram os que mais declamou.
Encantadora!
Escutei-a no Câmara Clara

quinta-feira, 12 de junho de 2008

meus cristais Orion


leio-Vos aliados da re existência
… anos-luz … de Orion

encontrei-Vos livres
RessuscitarAM

…cruzo o mar… rota incerta
no azul dos – Teus – olhos encontro a pátria…de Ser
…sem horas e minutos e segundos
sempre... aqui
no burilar da minha solidão…
leio-Te - verbo, pujança e trilho…
Originalidade…
rumo fortuito… este mundo
somos pouco … quando impotentes para cessar a guerra…

amo o Genuíno e o Labor… as gentes, as palavras, os sonhos... Os sentidos e o - teu - sabor a cristais…

a angústia de não ter pátria, fere-me a alma… mas – contigo – os lábios molhados de paz… são ninhos de Ser…

encontrei-Vos...
RessurgirAM

quarta-feira, 11 de junho de 2008

POESIA no Café Progresso - Porto

POESIA no Café Progresso
O mais antigo café do Porto - o Café Progresso, na rua Actor João Guedes, deu o salto para o futuro sem perder identidade. Tem bons pequenos-almoços, Internet, arte na parede, iniciativas em redor da palavra escrita, encontros de poesia… Conserva o afamado café de saco e o monograma nos assentos de couro. A cidade de 1899 já vai lá longe, mas o relógio não vai parar!
Vamos estar no Café Progresso – Porto, Junho 2008, para mais uma noite de Poesia. Apareçam…

Guernica 3D

A artista nova-iorquina Lena Gieseke pegou na Guernica de Picasso e deu-lhe mais uma dimensão - Guernica 3D. O resultado é muito interessante. Quantos detalhes nos podem passar despercebidos na Guernica de Picasso! Quantas mais vezes o observar, o ler, mais ciente se fica de que o horror retratado há 70 anos permanece actual! Nesta interpretação 3D de Lena Gieseke, acompanhada de Nana de Manuel de Falla - Guernica - ganha, ainda, mais presença e memória.

segunda-feira, 9 de junho de 2008







Mário Cláudio, escritor que ganhou o Prémio Pessoa em 2006, lança um livro sobre a adolescência de Bernardo Soares intitulado "Boa Noite Senhor Soares", pela D. Quixote. Um livro para os apaixonados de Pessoa que é ao mesmo tempo um retrato da sociedade Portuguesa dos anos 30. Para mais pormenores, aconselhamos a entrevista longa do autor à Visão, ou então ao DN.

terça-feira, 3 de junho de 2008


Cerne e o Verso


Foi para ti...

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 2 de junho de 2008






FADO.............

video


a minha poesia sou eu

a minha poesia poesia

...não, Poesia:
não te escondas nas grutas do meu ser,
não fujas à Vida.
quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser

sai…
sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
ama as Poesias de todo o Mundo,

- ama os Homens
solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
confunde-te comigo...

…vai, Poesia:
toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
a minha Poesia sou eu

Amilcar Cabral

domingo, 1 de junho de 2008


Registos...
[...] Interrompo a caminhada e digo interrompo, porque espero repetir a leitura do livro de Cristina Correia. Cada poema um caminho, uma hora, um momento, o intimismo velado ou revelado. Sempre que for relido, os caminhos desdobrar-se-ão, alterar-se-ão, porque nunca se repetem iguais [...] in "Prefácio'' de Armando Pinheiro
Cerne e o Verso

Mar

Mar

Só a maresia dissolve o ar.
Aquela pintura ardente
que se debruça na água
como um sopro morno
de ar cansado,
de tanto olhar.

in Cerne e o Verso

Uma simples panela velha

Uma simples panela velha

Um médico já idoso da Dacota dos Índios Sioux, Lame Deer, tentou explicar a um amigo branco o modo de pensamento dos índios. A palavra sioux Wakan Tanka, que utiliza, significa "força da criação", "grande espírito".
O que vês aqui, amigo? Uma simples panela de fundo já abaulado, e enegrecida pela fuligem. Está em cima do fogo, neste velho fogão de lenha. A água que tem dentro está a ferver e o vapor de água faz saltar a tampa. Dentro há água a ferver, carne com ossos, gordura e batatas.
Esta panela já velha não parece transmitir-nos nada, e de certeza que a única coisa em que pensas quando olhas para ela é em como cheira bem a sopa, o que te faz lembrar que estás com fome.
Mas eu sou um índio e medito em coisas simples e banais do dia-a-dia – como nesta panela. A água que está a ferver vem das nuvens. É um símbolo do céu. O fogo vem do Sol, que nos aquece a todos: homens, animais, árvores. A carne faz-me pensar nas criaturas de quatro patas nossas irmãs, os animais, que nos servem de alimento para podermos viver. O vapor da água é o símbolo do sopro da vida. Foi água, sobe agora para o céu e vai voltar a ser nuvem. Tudo isto é sagrado.
Quando olho para esta panela cheia de sopa, penso em como Wakan Tanka, o Grande
Segredo, olha por mim e desta forma tão simples. Nós, os Sioux, pensamos muito e muitas vezes nos objectos do dia-a-dia. Para nós, eles têm uma alma. O mundo à nossa volta está cheio de símbolos que nos ensinam o sentido da vida.
Nós dizemos que vós, os brancos, estais completamente cegos de um olho porque vedes muito pouco. Nós vemos muitas coisas que vocês há muito deixaram de ver.
Também poderíeis ver, se quisésseis, mas já não tendes tempo; estais muito ocupados. Nós, os índios, vivemos num mundo de símbolos e representações, onde o quotidiano e o espiritual são um só. Para vós, os símbolos não passam de palavras faladas, ou escritas num livro. Para nós, elas são uma parte da Natureza, uma parte de nós mesmos: a Terra, o Sol, o Vento, a Chuva. Pedras, árvores, animais, e até pequenos insectos como formigas e gafanhotos. Nós tentamos percebê-los, não com a cabeça mas com o coração, e basta-nos um pequeno indício para apreendermos a sua mensagem.

Lene Mayer-Skumanz (Org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986


FADO...

video


Palavras adormecidas e outras vozes...

Palavras adormecidas e outras vozes...

- Truz-truz!
- Entrai. Sede bem-vindos.
Iniciada a viagem, diante de nós a memória é o caminho do indefinido, dum mundo de imprevisto, diálogo incessante da dinâmica da Vida, simbiose entre o futuro, o presente e o passado.
Com todos os que dão magia e sonho à palavra escrita, comungamos.
É com encantamento que, nestes encontros, o pensamento perscruta a dimensão criativa, esta riqueza humana desperta de conhecimento.
Celebra-se a peregrinação das palavras adormecidas.
Continuaremos, essencialmente, na busca da essência do tempo, vivenciando em pleno fontes de alegria da profundidade do Ser.
Ali, no cimo do monte, parados no interior do automóvel, a uma escassa meia dúzia de quilómetros depara-se-nos a aldeia que se estende por vastos terrenos constituídos por vales e várzeas.
Abrigada pela privilegiada beleza da Serra, uma graciosa terra transmontana de gente notável e provida de talento se avista.
Ventanias de aromas povoam as casas de pedra da aldeia do mundo. Um caleidoscópio de manifestações de regionalismo pleno atinge a constelação de todos ao som de instrumentos musicais tradicionais, guitarra portuguesa, bandolim, audição de música clássica e salmos.
Chamavam-lhe aldeia do trabalho. Vales e pedras cobriam os seus terrenos de lavradio e recantos, que homens foram talhando ao longo dos séculos. A quinta, abundante de tudo, renascia todos os anos cansada de trabalhos corpulentos. A mina permanecia firme e a água, fonte da vida da aldeia, continuava a correr límpida e fresca.
Aquele solo era amado por Deus, como um filho.
O simbolismo dos Anjos esculpidos em pedra pelas mãos de mulheres e homens, reunidos no alpendre da capela, junto da mãe-torre, perpetuam no céu a mensagem de Aleluia das vozes do campo, do vale, da montanha e dos sonhos das crianças.
Descendo a encosta pela estrada macadame, dirigimo-nos à aldeia de infância de Francisco. Olhamos os lameiros, os trabalhos de terraplenagem iniciados nos lugares das Almoínhas, nos Casarelhos e na Corriça. O começo da instalação de bocas de rega para os novos pomares já se avizinha.
Junto ao casarão o quintal estava a ser tratado pelo primo António, mais velho cinco anos, que ficara a viver na aldeia, enquanto Francisco decidira ingressar na vida militar, fazendo algumas comissões no Ultramar, com regresso definitivo à Metrópole nos anos sessenta.
Dirigimo-nos ao pátio secular, de uma beleza incomparável, onde os amores-perfeitos, a trepadeira de lilases e as rosas despontavam luzes, cores e odores celestes todas as madrugadas. As sombras, os canteiros e os bancos arrumados despertavam os convidados a sentirem a auréola, procurando num desabrochar duma planta a mais pura e incognoscível manifestação da natureza.
Os arbustos, verdadeiros arautos da essência do porvir, cresciam junto às largas escadas, por onde Francisco subira para entrar em casa.
Entre velhos manuscritos caligrafados em folhas de papel velino e uma vela de candeia, Francisco vai enxergando os vultos das letras e os desenhos assimétricos que sua mãe Amália lhe deixara. As folhas já soltas, envolvidas por um xaile, no interior da arca, vêm reconstituir um lugar no tempo da sua íntima emoção. A toalha branca do Domingo de Ramos, o âmbar e a cidreira repousavam junto das cartas de sua mãe.
Sozinho, no quarto de seus pais, vai examinando as estampas, as escassas fotografias e os catálogos amontoados nos móveis da casa de pedra.
A trovoada fulgurante prolongava-se pela madrugada e os clarões rasgavam silhuetas nos muros da sua memória.
Quando a saudade toldava o coração, no sentimento de Francisco penetravam as mais diversas palavras agridoces, paisagens e vozes vivificantes.
Recorda as imagens de seu pai, homem de cérebro arrojado que procurou no próprio conhecimento, o entendimento, a vida, o seu sentido e o seu valor, sentado na eira, nas noites de Verão, balbuciando episódios do quotidiano.
A recitação de poesia partilhada pelo encontro de gentes da terra, de outros lugares e sentimentos, envolvia-os em viagens nómadas, inéditas, singulares, de imagens telúricas e saborosas.
Ficamos dias, sem pressa.
Demoramo-nos nos diálogos férteis de inteireza humana.
Revisitamos os compartimentos, os olhares profundos e os rostos familiares. Ali, naquele lugar, as vozes vinham ao encontro de todos.
Entre dois nacos de boroa, um caldo feijão e um bolo de cenoura, acende-se o fogo quente no rés-do-chão, que depois há-de servir para aquecer as longas horas dos serões.
A grande mesa rectangular estendia-se pela sala rústica, onde todos se reuniam para dividir o conduto e o trabalho. Cenário de diversos instrumentos espirituais, religião, superstição, ciência e filosofia, nela cabiam todos. Irmãos, primos, tios, pais e avós de Francisco, ali, edificavam projectos, venciam rotinas do trabalho braçal, diziam histórias, falavam dos estudos e da escola na aldeia vizinha, tocavam músicas da Banda Filarmónica, contavam a jorna e rebuscavam sonhos longínquos de novos céus. Eram deleitosos os convívios, profícuos em trabalho e em humanidade.
Já o céu estava povoado de silêncios, quando nos recolhemos na oração, de joelhos junto ao oratório, num momento de resignação.
Por fim, reinventamos as palavras adormecidas e outras vozes. Vozes dos anjos, vozes de pedra, vozes de estrelas, guardiãs da nossa própria consciência.
Cristina Correia







4 Poemas, 4 Mulheres

Mulher Mãe
(…) Ressuscito poemas e nas vozes dos anjos,
ventanias de aromas povoam as casas de pedra da aldeia do mundo,
o âmbar e a cidreira repousam junto das nossas memórias,
almas unidas até além da morte...Mulher,
somos verbo, pujança e trilho.
E quando o céu povoa silêncios, recolhemos
e reunidas reinventamos as palavras
adormecidas nas vozes de estrelas,
guardiãs da nossa consciência, eternamente.
E lutamos.

Mulher Coragem
(…) Deixa que a vida me diga de ti,
trabalho, a labuta, a faina,
As mãos gretadas, o perfume das rosas
No teu corpo abençoado.
Deixa que a vida me diga de ti,
O rosto da humanidade sofrida,
O fruto do amanhã, a esperança no infinito,
O presente. Sempre.

Mulher Solidão
(…) minha asa pousa "no parapeito da janela do silêncio"
e cai
uma lágrima quente a doer, sem voz
ave ferida...
No burilar da minha solidão
da terra sofrida
a solidão presente
e convivo
nos momentos-horizontes
odor de gaivota-mar.
No burilar da minha solidão
escrevo na água "memória do sempre"
sílabas de paz, (…)

Mulheres, Comovidas e Mudas
(…) por entre as rugas, a água teima em não secar,
e no meu peito rasgado de dor
a angústia de não ter "pátria",
fere-me a alma.
...E num canto de mim,
guardo um musgo,
não de trevas
mas de luz...
Ah!
Eu amo o Genuíno e o Labor,
Amo as gentes, as palavras, os sonhos...
O sentido das palavras, e das emoções,
Sou apenas, Mulher.

in Percursos
Cristina Correia

cerne e o verso

Filho Poema

(...) guardo aqui,
perfume,
pétala
... assim
sempre
sem pressa
sem horas e minutos e segundos
sempre
... aqui
neste peito,
ventre rasgado
sem tempo,
eu te convivo. (...)

in Cerne e o Verso